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Piracaia
30.09.2009
Piracaia em Alter do Chão - PA

Edson Queiroz

Até a década de 70 era comum, em Santarém, a realização de piracaia. Piracaia na língua indígena significa pira (peixe) e caia (braseiro). Então, evolui-se para peixe na brasa. Existe uma justificativa para que, naquela época, tal hábito fosse bastante difundido. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 1970, Santarém tinha 135.215 habitantes, sendo que destes, 37,81% estavam concentrados no centro urbano. A maioria estava concentrada na zona rural. Em 2000, por exemplo, a população saltou para 262.538 pessoas, sendo que no centro urbano estavam concentrados 70,96%, ou seja, 186.297 habitantes.

É fácil deduzir porque certos hábitos perdem a força. No caso da piracaia, a tradição se manteve, pelo que parece, enquanto a cidade era pequena. Poucas eram as ruas asfaltadas e as casas ficavam em sua maioria localizadas próximas ao rio. Outro fato era a importância das praias próximas ao centro, como Vera Paz, Salvação, Maria José, as praias da frente da cidade, etc... A praia da Vera Paz era um ponto tradicional de piracaia. Todos conheciam o estaleiro do Saca de Pirão, como era chamado o empresário da construção naval Antônio Capiberibe. Próximo à propriedade dele eram feitas piracaias, onde se podiam ver famílias inteiras reunidas.

Na frente da cidade, eram comuns as piracaias, com todos os ingredientes que mandam a tradição, como o violão, os temperos com sal, a pimenta malagueta, o limão e a cachaça. Não é nem preciso dizer que a farinha era, por certo, a estrela do espetáculo.

Mas uma piracaia para ser completa precisa se dividir em dois momentos. Um grupo volta-se para o rio, atrás do peixe. Até porque o bom é ter peixes frescos à disposição. Um outro fica espalhado na areia, contanto “estórias”, cantando, etc. A este grupo cabe a missão de fazer o fogo e preparar o local para assar os peixes, ou seja, o moquém. Quando o peixe já assado é servido, reza a tradição que a mão tenha grande utilidade. O uso de talheres deve ser descartado, para que o manuseio seja facilitado, em função da areia, da ação do vento, e, principalmente, pela sensação de liberdade.
A piracaia tem um forte poder de gerar renda para donos de embarcações tradicionais, para as comunidades, pois a eles caberá a missão de preparar todo o ritual, pois eles ainda mantêm o hábito, que precisa ser irradiado, de forma profissional. Mais do que o profissionalismo na prestação do serviço, o caboclo vai ter a condição de mostrar um pouco da história de seus antepassados, da maneira mais envolvente possível.

Texto: Emanuel Júlio Leite
Matéria publicada na Revista Conexão Oeste, Ed. 4

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