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Piracaia em Alter do Chão - PA
Edson Queiroz Até a
década de 70 era comum, em Santarém, a realização de piracaia. Piracaia na
língua indígena significa pira (peixe) e caia (braseiro). Então, evolui-se para
peixe na brasa. Existe uma justificativa para que, naquela época, tal hábito
fosse bastante difundido. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística), em 1970, Santarém tinha 135.215 habitantes, sendo que
destes, 37,81% estavam concentrados no centro urbano. A maioria estava
concentrada na zona rural. Em 2000, por exemplo, a população saltou para
262.538 pessoas, sendo que no centro urbano estavam concentrados 70,96%, ou
seja, 186.297 habitantes. É fácil
deduzir porque certos hábitos perdem a força. No caso da piracaia, a tradição
se manteve, pelo que parece, enquanto a cidade era pequena. Poucas eram as ruas
asfaltadas e as casas ficavam em sua maioria localizadas próximas ao rio. Outro
fato era a importância das praias próximas ao centro, como Vera Paz, Salvação,
Maria José, as praias da frente da cidade, etc... A praia da Vera Paz era um
ponto tradicional de piracaia. Todos conheciam o estaleiro do Saca de Pirão,
como era chamado o empresário da construção naval Antônio Capiberibe. Próximo à
propriedade dele eram feitas piracaias, onde se podiam ver famílias inteiras
reunidas. Na frente
da cidade, eram comuns as piracaias, com todos os ingredientes que mandam a
tradição, como o violão, os temperos com sal, a pimenta malagueta, o limão e a
cachaça. Não é nem preciso dizer que a farinha era, por certo, a estrela do espetáculo. Mas uma
piracaia para ser completa precisa se dividir em dois momentos. Um grupo
volta-se para o rio, atrás do peixe. Até porque o bom é ter peixes frescos à
disposição. Um outro fica espalhado na areia, contanto “estórias”, cantando,
etc. A este grupo cabe a missão de fazer o fogo e preparar o local para assar
os peixes, ou seja, o moquém. Quando o peixe já assado é servido, reza a
tradição que a mão tenha grande utilidade. O uso de talheres deve ser
descartado, para que o manuseio seja facilitado, em função da areia, da ação do
vento, e, principalmente, pela sensação de liberdade. A piracaia tem um forte poder de gerar renda para donos de embarcações tradicionais, para as comunidades, pois a eles caberá a missão de preparar todo o ritual, pois eles ainda mantêm o hábito, que precisa ser irradiado, de forma profissional. Mais do que o profissionalismo na prestação do serviço, o caboclo vai ter a condição de mostrar um pouco da história de seus antepassados, da maneira mais envolvente possível. Texto: Emanuel Júlio Leite Matéria publicada na Revista Conexão Oeste, Ed. 4 |